25 de agosto de 2009

Les vraies sportifs

Largada de um campeonato mundial. Cavalos e cavaleiros nervosos. É cada um por si, cada cavaleiro procurando o local onde seu cavalo fica mais confortável. Os demais só atrapalham. De repente, alguém cai e o cavalo segue com os outros, sem o cavaleiro.

Foi isso que aconteceu comigo em Compiègne, e eu imaginei que minha prova tinha acabado, além de temer seriamente pela saúde do meu cavalo. Um cavaleiro no chão é um incapaz: é menor e mais lento do que o cavalo, que nunca vai respeitar qualquer ordem do tipo “Volte Aqui!”.

Felizmente, todos os meus concorrentes, sem exceção, pararam e colocaram ao passo até que eu chegasse a meu cavalo e montasse de novo. Foi a verdadeira atitude de espírito esportivo, daquelas que fazem do enduro um esporte especial e diferente dos demais. Muito obrigado a todos os cavaleiros da prova de 8 anos de Compiègne!

17 de maio de 2009

The self made country

Após a derrota por 1x0 para o Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1994, alguém (não me lembro exatamente quem) ligado à seleção dos EUA afirmou (não exatamente nessas palavras): “Em 10 anos os EUA jogarão de igual pra igual com qualquer time do mundo. Os americanos querem ser os melhores no futebol, e eles sempre conseguem o que querem”.
No enduro, apesar da situação ser diferente (eles foram os melhores, vencendo todos os 7 mundiais de 1986 até 1998),  o discurso (pelo menos aquele com o qual eu tive contato) foi, por muito tempo, similar: “os EUA têm X provas por ano, cada uma com Y participantes e por isso não precisa do resto do mundo ou da FEI. Nada que aconteça fora do país importa”.
Assim como acreditar que nada pode te parar talvez te leve à derrota, acreditar que você é o melhor e que todo o resto não deve ser levado em consideração pode fazer com que você fique para trás. Foi o que aconteceu com os EUA, que perderam completamente o respeito que tinham no cenário internacional, apresentam resultados pífios em competições fora dos EUA há muito tempo e hoje nem são vistos como ameaça pelos demais países.
Tudo isto está prestes a mudar. É o que garantem os americanos. Com a realização do mundial no Kentucky em 2010, Becky Hart (3 vezes campeã do mundo – com o mesmo cavalo) como técnica, Valerie Kanavy viajando o mundo para aprender como se corre hoje em dia e todos humildemente assumindo que terão de mudar algumas coisas, a esperança dos ex-melhores é voltarem a sagrarem-se campeões mundiais.
Acredito que esta mudança de atitude já seja suficiente para que o mundo volte a olhá-los com outros olhos, no entanto na trilha ainda se vê um time pouco competitivo. Tanto no try-out da Malásia quanto no Panamericano do Uruguai (últimas duas vezes que eu os vi correr) os cavaleiros americanos abdicaram da vitória e correram para completar a prova. Ao não se testarem, com certeza voltaram para casa com cavalos mais sãos e mais treinados, no entanto perderam duas oportunidades quase únicas de aprendizado.
E você, acredita na ressurreição americana? Comentem!

PS: não estou discutindo a filosofia "to finish is to win" ou "faço enduro para me divertir e não para colocar meu cavalo em risco", apenas o quanto se consegue ser competitivo ao se fechar.

10 de maio de 2009

Fooled by randomness

Achei muito curioso o questionamento do Carlos Valença a respeito do resultado do Panamericano do Uruguai. Curioso porque ao comparar os acontecimentos com a final da Copa do Mundo de 1998, tornou-se clara toda a arrogância natural a qualquer ser humano.

É difícil aceitar que o desenrolar dos acontecimentos não é aquele que esperávamos. É difícil admitir que toda a análise que se fez antes do evento estava errada (ou excessivamente pretensiosa). E, mais difícil ainda, é reconhecer que as coisas não são previsíveis e previamente determinadas pelas condições iniciais. Assim, quando o resultado é diferente do esperado, todos correm a criar teorias para trazer o inesperado de volta ao campo dos fatos explicáveis. Esta busca por respostas não é necessariamente ruim, na verdade é muito boa e extremamente importante na medida em que essas teorias podem nos ajudar a, de fato, compreender o que aconteceu e a desenvolver nosso conhecimento a respeito do assunto. No entanto, quando essas teorias não são testáveis (como a maioria das que surge nesses momentos) terminam por criar verdades absolutas e impedir que se avance nas questões e que se evite os mesmos erros no futuro.

Segundo esta lógica de que “tudo tem uma razão”, se o jogador erra um pênalti na final é porque ele amarelou; se marca um gol nos acréscimos é porque cresce nas decisões; se o cavalo tem flutter é porque o cavaleiro passou seu nervosismo para ele; e se o Brasil leva o que tem de melhor pro Uruguai e volta sem nenhuma medalha é porque alguma coisa obscura aconteceu. Dado que não temos como saber se essas teorias são verdadeiras ou não, o melhor a fazer é ignorá-las, já que não nos ajudarão a evoluir como esportistas. O caminho é se concentrar naquilo que pode aumentar nosso conhecimento, admitir que não sabemos tudo e aceitar que há muita coisa para as quais nunca teremos a explicação completa, incluindo aí o acaso.

Quanto à prova posso dizer que me orgulho de ter feito parte de um grupo de mais de 50 pessoas completamente diferentes que, mesmo num ambiente extremamente competitivo, não tiveram nenhum problema de relacionamento (com grande ajuda do Olavo, Henrique e Guilherme – há que se ressaltar) e que se o resultado não foi positivo como esperávamos, não foi por problemas obscuros ou de ordem pessoal, mas sim porque tentamos vencer e não conseguimos.
Que cometemos erros é óbvio (assim como o fizemos em provas nas quais saímos vitoriosos, como Bahrain, Pinamar e Campinas) e da minha parte posso destacar ter deixado de me questionar se não havia como ser campeão sem estar na ponta todo o tempo. Ainda assim, prefiro cometer este erro e aprender do que não tentar ganhar, terminar a prova sem nunca ter tido chance a nada e continuar estático, com o mesmo conhecimento e visão que tinha antes da largada.

2 de março de 2009

Sobre o tratamento dado aos novatos

É engraçado como algumas alegações ganham status de verdade sem nunca terem sido testadas ou se quer discutidas. No enduro há alguns exemplos, mas o mais infundado, ao meu ver, é o de que “o novato é deixado de lado” e que isso levaria a um esporte “com a pirâmide invertida” (com mais praticantes de alto nível do que de nível médio ou baixo) condenando-o à diminuição e, quem sabe, à extinção.

Em relação à pirâmide de usuários, não me parece o caso, dado que normalmente as provas menores têm mais inscrições e com gente mais diversificada - na longa distância são sempre as mesmas pessoas em todas as provas. De qualquer maneira, uma análise mais aprofundada seria muito interessante.

No entanto, é a causa desta “inversão piramidal” – a negligência com novatos – que é o ponto mais fraco da linha de raciocínio. A importância que se dá aos iniciantes não é baixa, nem na teoria, nem na prática. No aspecto teórico basta observar as reuniões dos dirigentes do esporte: sempre há discussões acaloradas sobre como melhor atender aqueles que estão começando ou que praticam enduro apenas por diversão. Me parece ser o assunto mais discutido entre aqueles que tomam decisões, com revisões todas as temporadas, estatísticas de inscrições, etc. Esta preocupação transcende a teoria e se manifesta na prática: as provas com até 80kms são aquelas que contam com o maior número de categorias. Assim, o novato que desejar fazer prova de placas terá uma categoria para si (outra para o filho e uma terceira para a mulher), bem como aquele que prefere o regulamento de batimentos ou o terceiro, que quer fazer velocidade livre.

Se há descontentamento destes (e eu não tenho certeza que haja), se dá por um, ou por uma mistura, dos seguintes motivos: (I) os dirigentes, apesar de bem intencionados, não estão sabendo ouvir os principiantes; (II) os novatos, por se envolverem pouco, estão longe das discussões sobre calendário, regulamentos, preço de inscrição, taxas, etc e terminam vendo as decisões como imposições descabidas, uma vez que não existe um canal de comunicação entre a classe dirigente e aqueles que praticam o esporte de uma maneira menos intensa. Em qualquer um dos casos, o problema não é falta de interesse pelo fomento.

14 de fevereiro de 2009

Um aspecto negligenciado

Quando a comissão veterinária da CBH criou regras para a classificação (e desclassificação) de cavalos e cavaleiros, pensei que tivessem resolvendo um problema que não existia (especialmente no Brasil). Recentemente, depois da publicação pela FEI, percebi que o impacto do regulamento – que com a força da FEI provavelmente terá que ser, de algum modo, seguido – é muito mais profundo. A FEI não está apenas resolvendo um problema que não existe, ela está criando um problema em potencial.

Ao estabelecer de modo objetivo o que um cavalo pode e não pode fazer – independente da sensatez ou inteligência das regras – a FEI tira a responsabilidade de cavaleiros, treinadores e veterinários. Se antes estes tinham de se preocupar em estar fazendo a coisa certa, agora podem fechar os olhos e seguir o caminho sugerido pelo órgão máximo do esporte. Se antes todos se perguntavam “Quem é o irresponsável que fez isto?” ao se depararem com algo maléfico para o animal, a pergunta agora será “Este cavalo estava classificado pelas novas regras?”

Por mais que pareça natural, e até mesmo óbvio, questionar um planejamento de carreira feito por alguém que nunca viu seu cavalo, não sabe como você monta, no que você acredita e – agora o maior absurdo das novas regras – provavelmente não faz idéia de como uma prova no Brasil é diferente de uma européia ou árabe, será difícil desafiar o padrão estabelecido e fazer uma 3ª prova de 60kms ao invés de uma de 80kms (ou uma de 38kms que “não serve mais pra nada” ao invés de uma de 58kms).

É claro que a FEI acredita que impor limites aos cavaleiros não pode aumentar o risco a que estes submetem seus cavalos, no entanto nenhum legislador pode se esquivar dos efeitos colaterais e adaptações que surgem a suas normas.

27 de novembro de 2008

O esporte mudou?

Alguns processos levam tempo, vão acontecendo aos poucos sem quase ninguém perceber e de repente já fazem parte do nosso dia-a-dia. Nesse momento acontece alguma coisa que simboliza este novo cenário e todos, a partir de então, lembram-se: “Desde aquele fato as coisas mudaram...”
O Mundial da Malásia pode ser um desses marcos. Maria Ponton fez a prova inteira na frente, variando o ritmo o tempo todo (20, 18, 19, 16, 18, 17 e 21 foram suas médias por anel) e sagrou-se campeã do mundo. Mais do que investir numa estratégia diferente do padrão europeu (até então vencedor absoluto em mundiais), Maria virou as costas para uma “pressão social” (européia) que rotulava de “sem cabeça”, “despreparado” e “tolo que não entende o esporte e o ritmo do cavalo” aqueles que não faziam os primeiros anéis devagar para (tentar) recuperar nos últimos.

Será que ela fez isso porque monta nos Emirados, onde todas as provas são ganhas assim? Ou por influência dos treinadores uruguaios que tem na equipe? Será que essa estratégia sempre foi potencialmente vencedora ou só em determinados locais é vantajosa? Se a prova tivesse 6 anéis com descansos mais curtos e uma última etapa mais longa, a história seria a mesma? Nas velocidades nas quais são corridas as provas hoje em dia, é mesmo vantagem ter um cavalo inteiro e 15 minutos (ou mais) de desvantagem no último anel?

Enfim, o esporte mudou ou só se constatou que em condições diferentes das européias nem sempre a estratégia crescente é indiscutivelmente a melhor?

Em qualquer um dos casos, nós, brasileiros, podemos parar de nos culpar por nunca ter conseguido ser tão estrategicamente disciplinados e conscientes como franceses, espanhóis, italianos, etc.

1 de setembro de 2008

Quase

Às vezes a gente quase ganha. E assim foi Compiègne pra mim. No primeiro anel cheguei em 11º e fui o primeiro a entrar no vet. No segundo anel, fui o sétimo a chegar e o primeiro a entrar. No terceiro anel a história se repetiu: cheguei no bolo da frente e entrei em primeiro lugar no vet-check. Largaria em primeiro para o último anel, com o cavalo inteiro e cheio vontade de andar, mas aí ele mancou.

Mancou, aparentemente, graças a um corte relativamente profundo no bulbo da mão esquerda, resultado da alta velocidade e curvas rápidas no barro no qual virou a trilha depois de tantas horas de chuva. Na verdade, pouco importa o motivo da eliminação. O que importa é a mensagem que ficou depois do balde de água gelada que te leva de “Campeão do Mundo” a “Nada” (ou pior, a “Quase-Alguma-Coisa”): O Brasil tem tudo pra ganhar de qualquer um, só precisa tentar.