3 de maio de 2010

A volta do Troféu Coalheira

Coalheira: sf Peça de arreios que se coloca no pescoço dos animais de tiro e à qual se firmam os tirantes. (Michaelis). Traduzindo: peça que prende o burro à carroça.

Troféu Coalheira: prêmio dado ao autor do ato menos inteligente realizado durante os três dias da prova Multidays – tão ou mais valorizado do que o 1º lugar e Best Condition. Cheio de ironia, maldade e bom humor, simbolizava a única prova que o detinha, sendo a eleição (sim, a prova era democrática) de seu vencedor o ato final da premiação, talvez o momento máximo da competição. Durante os três dias de prova, além de se preocupar com sua posição, diferença acumulada pros adversários e estado do seu cavalo, os competidores tinham que tomar cuidado para não fazer nada digno do troféu e vigiar seus adversários esperando por um deslize destes. Ao término da distância de cada dia, comentava-se os possíveis candidatos ao Coalheira, além de tirar sarro dos que estavam atrás de você e ameaçar os que tinham alguma vantagem para o dia seguinte – tudo isso regado a cerveja.

Ao voltar para a casa percebia-se quanto a distância entre você e seu cavalo havia diminuído depois de três dias inteiros juntos, além de como os momentos dando risada com os amigos tinham sido prazerosos. O Multidays foi o símbolo de uma época em que o mais importante no enduro era o tempo que se passava com os amigos, sem se importar com qualificação FEI, regras para o Mundial, existência ou não da categoria Mirim-Peso-Pesado, ranking perene, etc. A boa notícia é que, mesmo com tudo isso, a prova voltará, depois de 9 anos de sua última edição. Como não se pode ignorar o cenário atual, haverá duas categorias: uma para aqueles que querem correr a prova “à moda antiga” – os três dias com um cavalo – e outra para aqueles que querem treinar ou qualificar seus cavalos – na qual será permitido usar diferentes cavalos nos diferentes dias.

Parabéns à toda organização da prova (Danilo, Vanda, Jorge, etc) e àqueles que a estão patrocinando, com certeza o enduro vai ganhar muito com a volta do Multidays!

15 de março de 2010

Em busca da verdade

Em todos os campos do conhecimento existe uma disputa entre teorias rivais tentando explicar a realidade e desenvolver um modo de enxergá-la. Nos esportes isto também se verifica, mas eliminar as teorias falsas torna-se especialmente difícil porque não há como fazer testes controlados e todo resultado provém de múltiplos fatores – vários deles incontroláveis e não-observáveis. No entanto, seja pelo desempenho daqueles que a adotam, seja pela força “comercial” que tem, uma ou duas teorias terminam dominando o esporte, fazendo com que todas as análises se dêem com base nela(s) e estabelecendo verdades que não são questionadas.

No enduro, porém, este processo encontra-se em fase embrionária. Quase qualquer coisa que se diga pode ser defendida ou atacada, seja com resultados de provas ou de modus operandi de alguém importante. A “prova crescente” francesa tem muitos defensores e é suportada por uma teoria elegante, no entanto não se verifica nos EAU nem no Uruguai; eletrólitos são vistos como fundamentais por alguns, e inúteis por outros; Barbara Lissarague, campeã mundial, trabalha seus cavalos no picadeiro, para que tudo seja mais fácil na trilha – faz sentindo – já Jack Begaud (que apesar de nunca ter sido campeão mundial é tão importante quanto um) defende que treinando na trilha o cavalo já aprende tudo que precisa – também faz sentido. Há cavaleiros que montam em suspensão, outros sentados de modo clássico e um terceiro grupo senta na sela, estriba o mais longo possível e coloca os pés o mais pra frente que pode – todos eles ganham provas importantes. As selas também variam do estilo Western às seletas inglesas – passando por todos os possíveis graus de combinação, selas de plástico, etc. O fator mais discutido parece ser o cavalo e, apesar de haver elementos geralmente aceitos (aprumos corretos, canela curta, quartela pequena, cascos redondos e bem alinhados, etc) não há um “cavalo ideal”: apesar da ampla busca por um cavalo de 1,57m, o atual campeão da President’s Cup e recordista de velocidade nos 160kms é só um dos exemplos de campeões baixos (Nobby, campeão mundial na Malásia, é outro).

Ao começar no esporte, um iniciante provavelmente não saberá o que fazer sem o conforto de um guia básico e seguro. Mesmo um iniciado ficará confuso ao avaliar se está fazendo as coisas de modo correto e ao tentar encontrar pontos onde possa melhorar. No entanto, podemos dizer que toda essa “pluralidade caótica” é positiva, pois significa que temos muita coisa a melhorar e estamos explorando diversos caminhos para chegarmos lá.

19 de janeiro de 2010

Um bom ano


Todo réveillon traz consigo a esperança de que o ano que nasce seja melhor que o ano que acaba. Mesmo que não tenhamos porque acreditar nisso sempre encontramos motivos para justificar nossa crença, o que, numa dose razoável, pode ser benéfico para nós. Analisando o calendário de 2010 encontro estas razões e acredito que o ano que se inicia pode ser muito proveitoso para os enduristas.

Ao todo temos 6 provas de longa distância, sendo a primeira em Março e a última em Dezembro (ambas em Brasília). A meu ver, este é um bom número mas poderia ser um pouco maior ou as provas distribuídas de outra maneira, de modo que aproveitássemos os meses de Junho e Setembro, que não são quentes e não tem nenhuma prova de longa distância marcada. Para isso o Campeonato Brasileiro de Cavalos Jovens poderia ser de 120kms, bem como a prova do Rach, que conta com um nome forte o suficiente para ter um bom número de inscrições.

Apesar destes dois meses sem provas de longa, o ano promete ser agitado: em Maio a décima edição FEI da Haras Endurance, com um carro de prêmio e promessa de grande festa; em Julho a prova de Mogi, que independente do nome (Paradise, Jequitibá ou Copa das Nações) já tem tradição e importância; e em Agosto o Campeonato Brasileiro, desta vez durante o inverno (a única insegurança diz respeito ao local escolhido, até então desconhecido, de modo que não sabemos exatamente o que esperar). Há, ainda, a prova do dia 30 de Outubro no Haras Jacovás – RS, que poderá contar com conjuntos argentinos e uruguaios – fato que traria atenção e importância para o evento.

Internacionalmente não há Panamericano nem Europeu, mas o Mundial. Trata-se de uma prova muito interessante, pois quase todos os cavalos terão que viajar para competir (e dessa vez estaremos lá) e os donos da casa já foram de longe os melhores do mundo no esporte, mas sumiram do cenário internacional.

9 de novembro de 2009

Sob a ótica do marketing


Há alguns textos atrás, dei minha opinião sobre a situação dos novatos no enduro. Para aqueles que trabalham com marketing estes seriam os clientes que consomem seu produto de vez em quando, naquelas situações esporádicas nas quais ele vai à loja ao lado de casa e se depara com a mercadoria lá. O objetivo do marketing para esses clientes é fidelizá-los, fazê-los passar a heavy-users e a desenvolver uma relação com sua marca. Como disse anteriormente, acredito que esta preocupação exista (não tão bem estruturada assim), de modo que a discussão deve se dar em relação à efetividade das estratégias de fidelização que estão sendo adotadas.

É nas etapas anteriores a esta, no entanto, que o enduro precisa desenvolver-se. Faltam ações para que enduristas em potencial (todos aqueles que reúnem as condições necessárias para fazer uma prova de 20kms) tomem conhecimento da existência do esporte, se interessem e decidam experimentar o enduro. Quando se tem um público relativamente grande e facilmente diferenciável (proprietários de cavalos de qualquer raça próximos ao local da prova a se realizar), um produto bom e barato (uma tarde montando a cavalo com a família) e um ambiente no qual é fácil promover um evento (como as cidades do interior), esforços para prospectar novos enduristas podem valer a pena.

19 de outubro de 2009

"No Tennis Shoes!"

“No Tennis Shoes!!!” era tudo que se ouvia do lado de fora do estádio de Lexington – Kentucky durante o pré-vet. Esta era a única preocupação dos stewards que organizavam a fila para a apresentação dos cavalos. Nenhum deles, no entanto, sabia exatamente o que caracterizava um tênis – o que alguns deixavam passar outros barravam (aparentemente a cor era o principal fator de avaliação).

A explicação para tamanho desespero é a última preocupação da FEI: deixar o enduro mais apresentável. É uma pretensão que faz sentido quando se pensa no crescimento, transmissão, acompanhamento pelo público e sonho olímpico do esporte, afinal tudo isto fica muito mais fácil e eficiente se a imagem dos esportistas for elegante e padronizada. Não faz sentido, no entanto, quando se pensa na atual cultura “pé na lama” do enduro, que não deixa de ser original e natural.

Nesta luta entre desenvolvimento do esporte e manutenção de seu espírito original, normalmente o lado do crescimento e da comercialização leva a melhor. Isto não é necessariamente ruim, por mais difícil que seja mudar nossa cultura (e talvez um dia termos que escolher roupas para montar de acordo com um padrão e não com o nosso gosto / conforto), desde que estes objetivos “maiores” sejam atingidos.

15 de setembro de 2009

"É a hora doooo Top5"

Ranking é como bikini: mostra tudo, menos aquilo que você quer ver. Em última instância, nenhuma medida consegue responder satisfatoriamente e ao mesmo tempo às seguintes (e muitas outras) perguntas: como ponderar resultados de diferentes distâncias? O número de concorrentes deve influenciar a pontuação? Campeonatos nacionais devem ser mais valorizados? Eliminações devem diminuir a pontuação de um cavalo ou serem simplesmente ignoradas? Como a pontuação diminui em relação à posição alcançada? Em pontuações de garanhões, a performance destes deve contar ou apenas a de seus filhos? Os resultados de netos e bisnetos devem aumentar a pontuação de um garanhão (ou apenas os resultados de seus filhos devem ser considerados)?

Apesar de todas estes questionamentos pertinentes a qualquer
Ranking, estas medidas tem um grande mérito: resumem milhares de informações em uma só: qual é o melhor cavalo dados determinados critérios. Esta visão simples e direta fornecida por um Ranking é importante para que se discuta, conheça e aprenda sobre as linhagens de nossos cavalos (sempre lembrando as restrições das premissas adotadas). Deste modo, a iniciativa da Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Árabe (ABCCA) de calcular o Ranking com todas as provas do Brasil é louvável e seus idealizadores (Ricardo Saliba e Salim Lahud) devem ser parabenizados por toda a comunidade do enduro nacional.

O passo seguinte deve ser o cálculo de outros Rankings, por outras instituições e usando critérios e premissas diferentes. Assim, será possível comparar resultados e, ao entender suas diferenças, compreender melhor as características de cada cavalo e linhagem.

25 de agosto de 2009

Les vraies sportifs

Largada de um campeonato mundial. Cavalos e cavaleiros nervosos. É cada um por si, cada cavaleiro procurando o local onde seu cavalo fica mais confortável. Os demais só atrapalham. De repente, alguém cai e o cavalo segue com os outros, sem o cavaleiro.

Foi isso que aconteceu comigo em Compiègne, e eu imaginei que minha prova tinha acabado, além de temer seriamente pela saúde do meu cavalo. Um cavaleiro no chão é um incapaz: é menor e mais lento do que o cavalo, que nunca vai respeitar qualquer ordem do tipo “Volte Aqui!”.

Felizmente, todos os meus concorrentes, sem exceção, pararam e colocaram ao passo até que eu chegasse a meu cavalo e montasse de novo. Foi a verdadeira atitude de espírito esportivo, daquelas que fazem do enduro um esporte especial e diferente dos demais. Muito obrigado a todos os cavaleiros da prova de 8 anos de Compiègne!