19 de janeiro de 2010

Um bom ano


Todo réveillon traz consigo a esperança de que o ano que nasce seja melhor que o ano que acaba. Mesmo que não tenhamos porque acreditar nisso sempre encontramos motivos para justificar nossa crença, o que, numa dose razoável, pode ser benéfico para nós. Analisando o calendário de 2010 encontro estas razões e acredito que o ano que se inicia pode ser muito proveitoso para os enduristas.

Ao todo temos 6 provas de longa distância, sendo a primeira em Março e a última em Dezembro (ambas em Brasília). A meu ver, este é um bom número mas poderia ser um pouco maior ou as provas distribuídas de outra maneira, de modo que aproveitássemos os meses de Junho e Setembro, que não são quentes e não tem nenhuma prova de longa distância marcada. Para isso o Campeonato Brasileiro de Cavalos Jovens poderia ser de 120kms, bem como a prova do Rach, que conta com um nome forte o suficiente para ter um bom número de inscrições.

Apesar destes dois meses sem provas de longa, o ano promete ser agitado: em Maio a décima edição FEI da Haras Endurance, com um carro de prêmio e promessa de grande festa; em Julho a prova de Mogi, que independente do nome (Paradise, Jequitibá ou Copa das Nações) já tem tradição e importância; e em Agosto o Campeonato Brasileiro, desta vez durante o inverno (a única insegurança diz respeito ao local escolhido, até então desconhecido, de modo que não sabemos exatamente o que esperar). Há, ainda, a prova do dia 30 de Outubro no Haras Jacovás – RS, que poderá contar com conjuntos argentinos e uruguaios – fato que traria atenção e importância para o evento.

Internacionalmente não há Panamericano nem Europeu, mas o Mundial. Trata-se de uma prova muito interessante, pois quase todos os cavalos terão que viajar para competir (e dessa vez estaremos lá) e os donos da casa já foram de longe os melhores do mundo no esporte, mas sumiram do cenário internacional.

9 de novembro de 2009

Sob a ótica do marketing


Há alguns textos atrás, dei minha opinião sobre a situação dos novatos no enduro. Para aqueles que trabalham com marketing estes seriam os clientes que consomem seu produto de vez em quando, naquelas situações esporádicas nas quais ele vai à loja ao lado de casa e se depara com a mercadoria lá. O objetivo do marketing para esses clientes é fidelizá-los, fazê-los passar a heavy-users e a desenvolver uma relação com sua marca. Como disse anteriormente, acredito que esta preocupação exista (não tão bem estruturada assim), de modo que a discussão deve se dar em relação à efetividade das estratégias de fidelização que estão sendo adotadas.

É nas etapas anteriores a esta, no entanto, que o enduro precisa desenvolver-se. Faltam ações para que enduristas em potencial (todos aqueles que reúnem as condições necessárias para fazer uma prova de 20kms) tomem conhecimento da existência do esporte, se interessem e decidam experimentar o enduro. Quando se tem um público relativamente grande e facilmente diferenciável (proprietários de cavalos de qualquer raça próximos ao local da prova a se realizar), um produto bom e barato (uma tarde montando a cavalo com a família) e um ambiente no qual é fácil promover um evento (como as cidades do interior), esforços para prospectar novos enduristas podem valer a pena.

19 de outubro de 2009

"No Tennis Shoes!"

“No Tennis Shoes!!!” era tudo que se ouvia do lado de fora do estádio de Lexington – Kentucky durante o pré-vet. Esta era a única preocupação dos stewards que organizavam a fila para a apresentação dos cavalos. Nenhum deles, no entanto, sabia exatamente o que caracterizava um tênis – o que alguns deixavam passar outros barravam (aparentemente a cor era o principal fator de avaliação).

A explicação para tamanho desespero é a última preocupação da FEI: deixar o enduro mais apresentável. É uma pretensão que faz sentido quando se pensa no crescimento, transmissão, acompanhamento pelo público e sonho olímpico do esporte, afinal tudo isto fica muito mais fácil e eficiente se a imagem dos esportistas for elegante e padronizada. Não faz sentido, no entanto, quando se pensa na atual cultura “pé na lama” do enduro, que não deixa de ser original e natural.

Nesta luta entre desenvolvimento do esporte e manutenção de seu espírito original, normalmente o lado do crescimento e da comercialização leva a melhor. Isto não é necessariamente ruim, por mais difícil que seja mudar nossa cultura (e talvez um dia termos que escolher roupas para montar de acordo com um padrão e não com o nosso gosto / conforto), desde que estes objetivos “maiores” sejam atingidos.

15 de setembro de 2009

"É a hora doooo Top5"

Ranking é como bikini: mostra tudo, menos aquilo que você quer ver. Em última instância, nenhuma medida consegue responder satisfatoriamente e ao mesmo tempo às seguintes (e muitas outras) perguntas: como ponderar resultados de diferentes distâncias? O número de concorrentes deve influenciar a pontuação? Campeonatos nacionais devem ser mais valorizados? Eliminações devem diminuir a pontuação de um cavalo ou serem simplesmente ignoradas? Como a pontuação diminui em relação à posição alcançada? Em pontuações de garanhões, a performance destes deve contar ou apenas a de seus filhos? Os resultados de netos e bisnetos devem aumentar a pontuação de um garanhão (ou apenas os resultados de seus filhos devem ser considerados)?

Apesar de todas estes questionamentos pertinentes a qualquer
Ranking, estas medidas tem um grande mérito: resumem milhares de informações em uma só: qual é o melhor cavalo dados determinados critérios. Esta visão simples e direta fornecida por um Ranking é importante para que se discuta, conheça e aprenda sobre as linhagens de nossos cavalos (sempre lembrando as restrições das premissas adotadas). Deste modo, a iniciativa da Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Árabe (ABCCA) de calcular o Ranking com todas as provas do Brasil é louvável e seus idealizadores (Ricardo Saliba e Salim Lahud) devem ser parabenizados por toda a comunidade do enduro nacional.

O passo seguinte deve ser o cálculo de outros Rankings, por outras instituições e usando critérios e premissas diferentes. Assim, será possível comparar resultados e, ao entender suas diferenças, compreender melhor as características de cada cavalo e linhagem.

25 de agosto de 2009

Les vraies sportifs

Largada de um campeonato mundial. Cavalos e cavaleiros nervosos. É cada um por si, cada cavaleiro procurando o local onde seu cavalo fica mais confortável. Os demais só atrapalham. De repente, alguém cai e o cavalo segue com os outros, sem o cavaleiro.

Foi isso que aconteceu comigo em Compiègne, e eu imaginei que minha prova tinha acabado, além de temer seriamente pela saúde do meu cavalo. Um cavaleiro no chão é um incapaz: é menor e mais lento do que o cavalo, que nunca vai respeitar qualquer ordem do tipo “Volte Aqui!”.

Felizmente, todos os meus concorrentes, sem exceção, pararam e colocaram ao passo até que eu chegasse a meu cavalo e montasse de novo. Foi a verdadeira atitude de espírito esportivo, daquelas que fazem do enduro um esporte especial e diferente dos demais. Muito obrigado a todos os cavaleiros da prova de 8 anos de Compiègne!

17 de maio de 2009

The self made country

Após a derrota por 1x0 para o Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1994, alguém (não me lembro exatamente quem) ligado à seleção dos EUA afirmou (não exatamente nessas palavras): “Em 10 anos os EUA jogarão de igual pra igual com qualquer time do mundo. Os americanos querem ser os melhores no futebol, e eles sempre conseguem o que querem”.
No enduro, apesar da situação ser diferente (eles foram os melhores, vencendo todos os 7 mundiais de 1986 até 1998),  o discurso (pelo menos aquele com o qual eu tive contato) foi, por muito tempo, similar: “os EUA têm X provas por ano, cada uma com Y participantes e por isso não precisa do resto do mundo ou da FEI. Nada que aconteça fora do país importa”.
Assim como acreditar que nada pode te parar talvez te leve à derrota, acreditar que você é o melhor e que todo o resto não deve ser levado em consideração pode fazer com que você fique para trás. Foi o que aconteceu com os EUA, que perderam completamente o respeito que tinham no cenário internacional, apresentam resultados pífios em competições fora dos EUA há muito tempo e hoje nem são vistos como ameaça pelos demais países.
Tudo isto está prestes a mudar. É o que garantem os americanos. Com a realização do mundial no Kentucky em 2010, Becky Hart (3 vezes campeã do mundo – com o mesmo cavalo) como técnica, Valerie Kanavy viajando o mundo para aprender como se corre hoje em dia e todos humildemente assumindo que terão de mudar algumas coisas, a esperança dos ex-melhores é voltarem a sagrarem-se campeões mundiais.
Acredito que esta mudança de atitude já seja suficiente para que o mundo volte a olhá-los com outros olhos, no entanto na trilha ainda se vê um time pouco competitivo. Tanto no try-out da Malásia quanto no Panamericano do Uruguai (últimas duas vezes que eu os vi correr) os cavaleiros americanos abdicaram da vitória e correram para completar a prova. Ao não se testarem, com certeza voltaram para casa com cavalos mais sãos e mais treinados, no entanto perderam duas oportunidades quase únicas de aprendizado.
E você, acredita na ressurreição americana? Comentem!

PS: não estou discutindo a filosofia "to finish is to win" ou "faço enduro para me divertir e não para colocar meu cavalo em risco", apenas o quanto se consegue ser competitivo ao se fechar.

10 de maio de 2009

Fooled by randomness

Achei muito curioso o questionamento do Carlos Valença a respeito do resultado do Panamericano do Uruguai. Curioso porque ao comparar os acontecimentos com a final da Copa do Mundo de 1998, tornou-se clara toda a arrogância natural a qualquer ser humano.

É difícil aceitar que o desenrolar dos acontecimentos não é aquele que esperávamos. É difícil admitir que toda a análise que se fez antes do evento estava errada (ou excessivamente pretensiosa). E, mais difícil ainda, é reconhecer que as coisas não são previsíveis e previamente determinadas pelas condições iniciais. Assim, quando o resultado é diferente do esperado, todos correm a criar teorias para trazer o inesperado de volta ao campo dos fatos explicáveis. Esta busca por respostas não é necessariamente ruim, na verdade é muito boa e extremamente importante na medida em que essas teorias podem nos ajudar a, de fato, compreender o que aconteceu e a desenvolver nosso conhecimento a respeito do assunto. No entanto, quando essas teorias não são testáveis (como a maioria das que surge nesses momentos) terminam por criar verdades absolutas e impedir que se avance nas questões e que se evite os mesmos erros no futuro.

Segundo esta lógica de que “tudo tem uma razão”, se o jogador erra um pênalti na final é porque ele amarelou; se marca um gol nos acréscimos é porque cresce nas decisões; se o cavalo tem flutter é porque o cavaleiro passou seu nervosismo para ele; e se o Brasil leva o que tem de melhor pro Uruguai e volta sem nenhuma medalha é porque alguma coisa obscura aconteceu. Dado que não temos como saber se essas teorias são verdadeiras ou não, o melhor a fazer é ignorá-las, já que não nos ajudarão a evoluir como esportistas. O caminho é se concentrar naquilo que pode aumentar nosso conhecimento, admitir que não sabemos tudo e aceitar que há muita coisa para as quais nunca teremos a explicação completa, incluindo aí o acaso.

Quanto à prova posso dizer que me orgulho de ter feito parte de um grupo de mais de 50 pessoas completamente diferentes que, mesmo num ambiente extremamente competitivo, não tiveram nenhum problema de relacionamento (com grande ajuda do Olavo, Henrique e Guilherme – há que se ressaltar) e que se o resultado não foi positivo como esperávamos, não foi por problemas obscuros ou de ordem pessoal, mas sim porque tentamos vencer e não conseguimos.
Que cometemos erros é óbvio (assim como o fizemos em provas nas quais saímos vitoriosos, como Bahrain, Pinamar e Campinas) e da minha parte posso destacar ter deixado de me questionar se não havia como ser campeão sem estar na ponta todo o tempo. Ainda assim, prefiro cometer este erro e aprender do que não tentar ganhar, terminar a prova sem nunca ter tido chance a nada e continuar estático, com o mesmo conhecimento e visão que tinha antes da largada.